OUTORGA

Nascida na Suíça e naturalizada brasileira, homenageada registrou realidade dos Yanomami e atuou em defesa deste povo

Claudia Andujar (acima, esq.) junto à mestre de cerimônia Manuele Pimentel Serra – indígena Tuyuka e estudante de Direito na UnB –, à diretora da FAC, Dione Moura (abaixo, esq.), e à reitora Márcia Abrahão na cerimônia de outorga do título. Imagem: Reprodução

 

A fotógrafa e ativista Claudia Andujar é notoriamente conhecida pelo trabalho artístico feito com os Yanomami. Nos anos 1970, enquanto parte da equipe de fotógrafos da revista Realidade, recebeu uma bolsa da Fundação Guggenheim e, posteriormente, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para fotografar e estudar a cultura dos indígenas Yanomami.

 

Entre 1971 e 1977, Andujar acompanhou a rotina diária destes povos na região do Catrimani, em Roraima. Os registros – são mais de 40 mil fotos neste período – vão além das atividades na floresta e na maloca e dos rituais xamânicos: eles são uma denúncia da violência e poluição causadas pelo garimpo e pelos planos de desenvolvimento da Amazônia durante o governo militar.

 

Por direcionar um olhar sensível a esta população, que corria o risco de ser extinta naquele momento, e pelas décadas de dedicação em defesa dos Yanomami, a Universidade de Brasília concedeu a Claudia o título de Doutora Honoris Causa. A cerimônia ocorreu exclusivamente on-line, na tarde desta quarta-feira (29), transmitida pelo canal da UnBTV no YouTube.

 

Membro da comitiva da laureada, a ministra de Estado dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, falou em vídeo elaborado em homenagem à nova doutora honoris causa. Ela saudou a fotógrafa que “tão bem retratou os povos indígenas, em especial os Yanomami, e que contribuiu significativamente para que a demarcação do território Yanomami se efetivasse.”

 

A ministra relembrou o estado de calamidade em que a população se encontra desde o governo anterior e fez um apelo: “Você continua ajudando e contribuindo, e nós precisamos de mais pessoas como você, de mais artistas que possam se somar a essa causa.”

 

Professora do Departamento de Audiovisual e Publicidade da Faculdade de Comunicação (DAP/FAC) e oradora da cerimônia, Susana Dobal ressaltou a importância artística e sociológica do trabalho de Claudia Andujar. “Com esta cerimônia, a UnB vem dar voz a uma boa parcela da nossa sociedade que quer virar a página em que os Yanomami e o Brasil apareceram nos anos recentes, e celebrar a invenção intelectual, por meio da imagem, e o engajamento de uma vida que um dia foi estrangeira, mas que o Brasil teve a felicidade de acolher.”

 

“Acima de tudo, quero agradecer a Claudia Andujar por aliar corajosamente a experimentação estética à fotografia documental e ter tido a sabedoria de fazer da dor que a história lhe reservou, com as perdas familiares no início da vida, menos um peso do que uma alavanca para tentar construir um mundo melhor”, disse Dobal.

 

“Claudia Andujar nos ensinou que a arte pode ampliar a compreensão do mundo, pode nos ajudar a ver e a entender o que é invisível e nos fazer sentir o que é insondável”, disse Thyago Nogueira, curador da área de Fotografia Contemporânea do Instituto Moreira Salles (IMS) e editor da Revista Zum.

 

Convidado pelos professores da FAC, o fotógrafo, antropólogo e pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF) Milton Guran reiterou que Claudia Andujar “é, sem dúvidas, uma das mais importantes artistas visuais vivas, mas mais do que isso, como humanista e ativista, é uma cidadã exemplar.”

 

Diretora da FAC, Dione Oliveira Moura expressou a alegria em ter este encontro com Claudia Andujar no segundo dia do semestre letivo da Universidade. “A sua fotografia marcou o fotojornalismo brasileiro e a história dos povos indígenas brasileiros. Não é por acaso que a UnB de Darcy Ribeiro seja pioneira na luta pelas cotas indígenas, e que a Faculdade de Comunicação, especialmente, tem uma tradição de formação de indígenas”, pontuou.

Claudia Andujar registrou imagens memoráveis dos Yanomami ao longo de sua carreira. Mais de 40 mil fotografias foram feitas entre 1971 e 1977, quando esteve na região do Catrimani. Imagem: Reprodução/UnBTV

 

Claudia Andujar disse ter ficado impressionada com o conhecimento que os membros da comitiva têm acerca do seu trabalho e agradeceu repetidas vezes aos “brasileiros que estão tentando defender a sua população.” "Eu me dediquei e continuo dedicando a minha vida aos Yanomami. O pessoal que tem interesse na continuação do país deve dedicar tempo e pensamento para ajudar povos indígenas como os Yanomami”, suplicou a ativista.


“Agradeço muito pelo título de Doutora Honoris Causa que recebo hoje. Eu já tenho 91 anos, mas vou continuar a trabalhar e defender o que eu puder”, disse Claudia Andujar.

 

A outorga do título foi aprovada pelo Conselho Universitário (Consuni) em 2019, a pedido da Faculdade de Comunicação (FAC). A honraria é atribuída à personalidade que, entre outras razões, atuou em prol do melhor entendimento entre os povos. 

 

BIOGRAFIA – Nascida na Suíça em 1931, Claudia Andujar chegou ao Brasil em 1955, depois de passar pela Europa e pelos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Com origens judaicas, Andujar foi sobrevivente do Holocausto. Conheceu de perto e desenvolveu uma linha de trabalho focada em comunidades marginalizadas e em situação de vulnerabilidade.

 

A fotografia era a sua linguagem e a sua expressão, e, ao longo dos anos, tornou-se o seu instrumento de trabalho. Claudia percorreu o Brasil e colaborou com revistas nacionais e internacionais, como Life,Aperture,Look,Cláudia,Quatro RodaseSetenta, além de ter trabalhado como freelancer da revista Realidade. Influenciada por Darcy Ribeiro, conheceu a realidade dos indígenas do país e, em 1976, naturalizou-se brasileira.

 

Apresentou o seu trabalho em diversas exposições, como na 24ª e 27ª Bienal Internacional de São Paulo – realizadas em 1998 e 2006, respectivamente –, na Fundação Cartier de Arte Contemporânea de Paris, em 2002, e no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

 

O trabalho humanitário de Claudia vai além da fotografia. A ativista foi membro ativo da Comissão Pró-Yanomami e, em 1978, coordenou a campanha pela criação da reserva indígena, reconhecida em 1992. A compaixão e o respeito desenvolvidos enquanto convivia com os indígenas também foram materializados em mais de dez livros – entre eles, Yanomami: A Casa, A Floresta, O Invisível (1998) e Amazônia (1978) – e no documentário Povo da Lua, Povo do Sangue: Yanomami(1972).


Confira a cerimônia de outorga do título:

 

*estagiário em Jornalismo na Secom/UnB.

 

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ATENÇÃO – As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seus conteúdos. Crédito para textos: nome do repórter/Secom UnB ou Secom UnB. Crédito para fotos: nome do fotógrafo/Secom UnB.